Palhaços e Mensagens

Um palhaço de nariz vermelho me para próximo à Selaron e com uma caixinha cheia de papéis cuidadosamente dobrados faz um gesto para que eu tire um lá de dentro. Tirei, desdobrei (vi que também foi pensada uma forma para recortar o pedaço de papel – um zigue-zague estiloso, que dava vontade de guardar de lembrança) e li:

“De um lado estão os reis, com seu prestígio, os imperadores com sua glória, os gênios, com sua aura, os santos, com a sua auréola, os chefes do povo, com seu domínio, as prostitutas, os profetas e os ricos… Do outro estamos nós – o moço de fretes da esquina, o dramaturgo atabalhoado William Shakespeare, o barbeiro das anedotas, o mestre-escola John Milton, o marçano da tenda, o vadio Dante Alighieri, os que a morte esquece ou consagra, e [a] vida esqueceu sem consagrar” – Livro do desassossego, Bernardo Soares ou Fernando Pessoa.

Continuei a andar, caminhei para a escadaria colorida, ali eu poderia sentar em um de seus degraus para pensar melhor. E fiz isso enquanto tomava uma cerveja… Era a última frase do que acabara de ler e o som da voz do palhaço dizendo “Pegou esse…” com um certo tom de mistério que penetrou na minha cabeça durante o processo… Me peguei olhando um azulejo da escadaria. Sorri. Era mais um palhaço me trazendo luz ao pensamento.

Terminei a cerveja e senti que não era possível jogar aquele papel fora – o guardei dobrado na carteira. Fui embora e passando pelo palhaço dei a ele o sorriso que eu deveria ter dado antes.

Talvez seja necessário amar mais e mais ainda. É preciso manter-me [Lapa] viva. De alguma maneira e em algum lugar inventar formas…

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THUKA

A popular Thuka, minha amiga da faculdade, me contou um causo, coisas que só acontece com ela.

Num desses dias saímos tarde da aula, e como ela tem horário pra pegar a condução para a Baixada Fluminense, saiu correndo na frente.

De sandália rasteira, daquela que de tanto usar fica lisa em baixo, minha querida amiga foi ao chão.

Disse que não percebeu como e porque caiu. Mas percebeu que havia um líquido mau cheiroso e algumas cabeças e espinhas de peixe no local.

Levantou-se correndo, limpou a perna com papel higiênico que estava dentro da bolsa e pegou a primeira van que apareceu.

Todos que iam entrando na van reclamavam do fedor de peixe podre. Thuka não sabia muito o que fazer, e quieta até seu destino suportou ouvir as falações, a cara feia de todos procurando da onde vinha o fedor e o vento forte das janelas abertas.

Isso me lembrou um dia na feira que cruza a rua do Resende, na Lapa. Catei “cavaco” com um monte de sacola nas mãos. Meus tomates se tornaram extrato!

Não fiquei com nenhum cheiro ruim, mas ganhei um joelho roxo e uma marca na minha batata da perna direita.

Mas é muito Photoscape!

– Mas é muito Photoscape!

Essa foi a reação da minha amiga ao ver as fotos de uma revista de moda numa banca ali perto do Odeon. Claro que entendi o que ela quis dizer. Ela não estava falando da cena louca em que garotas vestidas para a balada resolvem passear numa praia no meio do nada. Estava mesmo era indignada com a pele sem poros e o corpo perfeito das modelos. Mexem nas cores, no brilho, no contraste, tudo para recriar um clima.

Agora, porque Photoscape? Muitos outros falariam Photoshop, eu achei que ela falaria Photoshop. Mas sabe que eu gostei da frase dela? Fugiu do padrão.

Quando a gente estava andando pela Mem de Sá percebi que muitos bares ali tem uma cara meio maquiada sabe? Um cenário feito pra aquelas meninas da revista de moda que minha amiga criticou mais cedo. Mesas, garçons, decoração, iluminação tudo é milimetricamente pensado para recriar um clima, mas sem imperfeições, assim como nesses editoriais de moda.

Agora, a gente combinou que quando entrarmos num desses bares arrumadinhos vamos soltar:

– Mas é muito Photoscape!

Comunicação social

14h00. Com sono, um pouco de dor de cabeça, levemente indisposta a assistir aula. Aula! Sala de aula ampla, cerca de 30 pessoas: mais mulheres do que homens, umas 22 pelo menos (Perfil comum entre estudantes de comunicação social). A conversa paralela rolando solta. Professora meio franzina, baixa, magra, Profa. Rita, a frente esforça-se para falar mais alto do que os alunos, grande competição. A minha frente duas tagarelas, uma loira alta e uma negra magra, programam a balada de logo mais a noite. Uma delas, a loira, diz: “Amiga, hoje eu quero beber todas! Vai rolar a festa e será na Lapa. Preciso muito relaxar e se rolar um pente, ótimo!” [risos contidos entre as duas se olhando]. Olhando para as duas, pensei: Porque a Lapa é sinônima de boemia? Não que isso seja de todo ruim, mas existem cinemas, casas, lojas, pessoas, sabores, cheiros que dizem mais sobre uma Lapa que os/as frequentadores (as), principalmente, de sexta à noite não conhecem. Penso assim, e parei de pensar porque minha dor de cabeça aumentou.

FOBIA


Estava pensando sobre as origens das coisas e nada tão lógico me apareceu nas minhas inculcações, a Betinha amigona da faculdade num desses papos calcinhas estava histérica com um caso surreal que aconteceu com ela que desmaiou na mesa do bar lotadíssimo da Lapa por simplesmente uma barata passou no seu pé, de tão gelada ela ficou que perdeu os sentidos… E pifou  só acordou numa roda agitada com a galera em cima para acordá-la, de tão envergonhada ela não pisou mais o pé na Lapa.

Momentos depois numa noite de quarta-feira como o habitual fiz um pit stop no Ximeninho quando de repente vi um auênuma mesa ao lado ,um baita cara alto parrudão ( desses com estereotipo de pit bull ), dando um chilique porquê tinha um gato importunando pela sua presença em seus pés de tão apavorado o sujeito ficou que os garçons vieram em seu auxílio para afugentar o bichano mas o pobre do felino voltava de novo com essa cena toda os amigos deles em mil gargalhadas falando pro cara se acalmar mas nada adiantou eram tantos pulos de cá pra lá que acabou que todos foram embora em solidariedade ao amigo que tremendo de medo , pavor ou sei lá oque da pequena criatura resolveu deixar o recinto, refleti que não importa o motivo disso ou aquilo mas que todos temos um medinho de algo.

Meu Kaleidoscópio

“Se não fosse os vendedores de rua a noite na lapa estaria perdida”, essa é a frase que gravei de toda aquela história.
Na faculdade uma amiga me contará como tinha sido à noite de sexta-feira, entusiasmada embalava o conto.  Boate, música, bebida, dançando até o chão, banheiro com temática medieval…Na real a diversão foi aturada por 3 horas depois disso a grana curta impediu a galera de continuar lubrificando a garganta. A noite termina na caixa de isopor em baixo dos arcos.
Muitas noites terminam ou começam no bom e velho isopor que correram o risco de extinção, esse ritual faz parte da folclórica noite na lapa.
– Lembra do gramado? Aquele bem perto dos arcos?
Aquela grama era ponto de encontro, espaço dividido entre punks, prostitutas, mendigos, vendedores e pequenos burgueses, era o fundamento ou uma breve passagem.
 Em seu lugar hoje grandes tapumes impedem a boa e velha parada, promessas de mudanças retiram as pessoas como personagens e dão lugar ao concreto.
Aquele mesmo isopor que fez do beco do rato a sensação das quartas-feiras, agora não circula mais. Cobrança de ingressos, visão bloqueada por engradados, confinamento, não se trata de puro saudosismo, mas de uma lamentação, a onda que era coletiva, que fazia da rua, do beco, sustento e diversão, agora limita o encontro a uma entrada, a sufocantes paredes.
 
“Se não fosse os vendedores de rua a noite na lapa estaria perdida”, fadadas ao encontro programado e ao dinheiro, R$ 5,00 que garantiam uma noite, agora não se garante com R$ 50,00.

Burguesinha, burguesinha, burguesinha, burguesinha, burguesinha…

Hoje durante a aula, de uma amiga de turma, que mora em Copacabana – e só estuda na estação Carioca do metrô porque trabalha na empresa do pai em um edifício ao lado e assim vai e volta pra casa com ele de carro – em uma conversa alheia, ouvi:

– o que presta na Lapa é o leviano’s, o rio scenarium, o sacrilégio e o Lapa 40º.

tive que intervir:

– você não tem noção do quanto a Lapa é uma imensidão de culturas, histórias e diversão. Fique sabendo que cada casa, prédio ou bar é um gabinete de curiosidades que se explorados minimamente tiram o chapéu de sua intimidade e mostram a você o que é a lapa de verdade.

Pobre burguesinha, burguesinha, burguesinha, burguesinha, burguesinha vê o mundo pela janela da carruagem.

O que ela pode ter pensado sobre isso

– Tô aceitando uma cerveja heim!

Era o que dizia minha colega de faculdade depois da última hora de estudos para a prova de amanhã. Igualzinho a fala de uma personagem em um dos vídeos do Projeto Cérbero que tenho mania de assistir no YouTube.

Domingo, fim de tarde quente. Partimos para uma cerveja num boteco perto. Enquanto esperávamos a gelada congelei a imagem das duas na cabeça e comparei. O sorriso também era parecido, só o sorriso: com as covinhas na bochecha, mais nada. A pele, o batom, os olhos, as cores, nada era parecido. Ela era o oposto da personagem, não estava bêbada nem segurava a bandeira do Brasil na mão direita… Mas tinham dito a mesma frase. A voz das duas, por um instante se confundiu na minha memória. Quem era quem?

Ela olhou pra mim meio assustada.

– O que foi?

Não disse nada, sorri e não imagino o que ela pode ter pensado sobre isso… Ela retribui o sorriso e aceitou a cerveja. A conversa segue sobre as questões que podem cair na prova amanhã.

eleapeá!

Fiquei tentando trazer a memória qual foi a primeira vez que vim visitar a LAPA – eleapeá!

E com todo o meu esforço, não consegui recordar. A única coisa que me veio forte foi uma apresentação sobre contação de histórias no Recordatório, na rua Joaquim Silva, numa manhã de sábado. Havia recebido por e-mail e fui conhecer.

Foi uma espécie de workshop da oficina que seria dada. O lugar era muito colorido, com panos de chita, músicas de ciranda ao fundo e uma moça muito gentil que falava.

Lembro-me que não tinha idéia de onde seria a tal rua Joaquim Silva – me parecia nome de sambista – e cheguei a ficar confusa assim quando pisei na Lapa. Parei num bar e me indicaram por onde deveria seguir. Fui pela rua, avistei o número, apertei a campainha, subi pelas escadas e lá estava eu, sendo recebida pela “professora” e outras mulheres que também tinha ido lá para conhecer a oficina.

A visão da lapa que sempre me apresentavam como lugar boêmio, pela manhã de sábado tinha outra sintonia. Vi coisas que jamais perceberia numa noite: Vi pessoas com pães nas mãos, gente varrendo calçada, mulheres gritando pelas crianças, homens lendo jornal na esquina.

Logo pensei: As noites deve ser pura encenação! Bares, ruas com diversos figurantes. Como uma vida de big brother que alguém, que não sabemos quem, vê, assite e manipula todas as peças.

Mas pelas manhãs, pelo menos nos finais de semana, o poder não pode ser exercido e a vida torna-se normal.

Fragmento de um discurso amoroso

-Tem Henry Miller, Joyce, Roland Barthes, Jung…

-Tem Roland Barthes?

-Tem, aqui ó.

-Ah, ‘’Fragmentos de um Discurso Amoroso’’… Só tem esse?

-Hoje, aqui, só tenho esse.

Quando eu ouvi Roland Barthes sair da boca daquele vendedor de livros, que fica ali na Rua do Passeio, pensei que ia encontrar uns tesouros tipo “Óbvio e Obtuso” ou “O Grau Zero da Escrita”… Não comprei o livro, mas o nome do livro não saiu da minha cabeça. Até que ví isso no Youtube:

Enquanto via, pensei que a história do clipe era um fragmento de um discurso amoroso e que o livro, já na capa, trazia a definição do que o clipe mostrava… Colocar Roland Barthes e The Potbelleez no mesmo cômodo seria uma boa…   Queria que Roland Barthes estivesse aqui para poder discutir a respeito disso… Como só sobraram os livros, acho que vou ver se ainda acho o livro lá…