Arquivo da categoria: Lapa Girl por Érica de Campos

Next stop Cinelândia

Acho que eu estava cochilando, é isso. Eu estava com muito sono e acordei assustada ouvindo aquela voz sexy e musical do metrô: “Next stop Cinelândia”. Como pode? Se eu tinha entrado no metrô justamente na estação Cinelândia como poderia eu estar ouvindo essa frase?!

O vagão estava lotado, quente e sem ar. Olhei ao redor e todas as caras demonstravam sentir uma mesma insatisfação. Preferi fechar os olhos, eu também não queria estar ali – O Metrô é a mesma coisa que trem, só que mais limpo. Eu pensava nisso e na estação que se aproximava. Eu precisava levantar e sair do vagão. Meus olhos não abriram e de repente aquela voz novamente “Next stop Cinelândia”. Não é possível! Decidi levantar. Talvez, se eu conseguisse me aproximar da saída, mas são tantas pessoas até lá. Eu pedia licença, mas a magia dessa palavra não funcionava ali. Eu tentava escorrer entre os corpos. Não consegui identificar quem beliscou minha bunda. Estava quase chegando, se a próxima estação era a Cinelândia, na outra eu poderia sair. Passou a Cinelândia e consegui chegar até a porta. Fiquei imprensada ali, com a cara no vidro e os olhos abertos aguardando a próxima estação…

Next stop Cinelândia”. Acordo e estou sentada no banco preferencial do metrô. A velhinha cutucando com um olhar revoltoso e eu levanto meio tonta para ela sentar e inventar um outro olhar mais generoso. Não sei o que está acontecendo! A próxima estação então era a Cinelândia? Mas se foi de lá que eu vim?! A velocidade diminui, a porta abre – Cinelândia – empurrei quem estava na minha frente e saí depressa do vagão. Subi as escadas correndo em direção a saída, passei a roleta. O que devo vou encontrar lá fora? Mal posso esperar para descobrir…

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Apocalipse

“Vi, então, descer do céu um anjo que tinha a chave do abismo e uma grande cadeia na sua mão. E prendeu o dragão, a serpente antiga, que é o Demônio e Satanás, e amarrou-o por mil anos; meteu-o no abismo e fechou-o e pôs selo sobre ele, para que já não seduza mais as nações, até se completarem os mil anos; e depois disto deve ser solto por um pouco de tempo” – Apocalipse 20:1-3.

“Criaturas! Deixem-me em paz!” – Enfezado, ele dá a língua aos humanos que por ali passam.

 Há quantos milênios o Diabo procura a paz? O dia marcado e remarcado infinitamente o faz se sentir injustiçado. Cansado de levar a culpa o tempo todo, mesmo com aquela cara feia, ele também gostaria de sorrir, sair do abismo em que o jogaram, respirar menos enxofre.

Ainda que pronunciado o tempo todo, e por inúmeros nomes distintos, o Diabo está só. Quer o seu pouco de tempo (por direito, já que o está escrito é lei), e quem sabe tomar um sorvete ou abandonar de vez o vermelho…

“Também sou filho de Deus!” – Reclama a minha atenção, através de um de seus ícones, preso a um azulejo da Selarón… Dei a língua pra ele também e segui meu rumo.

Palhaços e Mensagens

Um palhaço de nariz vermelho me para próximo à Selaron e com uma caixinha cheia de papéis cuidadosamente dobrados faz um gesto para que eu tire um lá de dentro. Tirei, desdobrei (vi que também foi pensada uma forma para recortar o pedaço de papel – um zigue-zague estiloso, que dava vontade de guardar de lembrança) e li:

“De um lado estão os reis, com seu prestígio, os imperadores com sua glória, os gênios, com sua aura, os santos, com a sua auréola, os chefes do povo, com seu domínio, as prostitutas, os profetas e os ricos… Do outro estamos nós – o moço de fretes da esquina, o dramaturgo atabalhoado William Shakespeare, o barbeiro das anedotas, o mestre-escola John Milton, o marçano da tenda, o vadio Dante Alighieri, os que a morte esquece ou consagra, e [a] vida esqueceu sem consagrar” – Livro do desassossego, Bernardo Soares ou Fernando Pessoa.

Continuei a andar, caminhei para a escadaria colorida, ali eu poderia sentar em um de seus degraus para pensar melhor. E fiz isso enquanto tomava uma cerveja… Era a última frase do que acabara de ler e o som da voz do palhaço dizendo “Pegou esse…” com um certo tom de mistério que penetrou na minha cabeça durante o processo… Me peguei olhando um azulejo da escadaria. Sorri. Era mais um palhaço me trazendo luz ao pensamento.

Terminei a cerveja e senti que não era possível jogar aquele papel fora – o guardei dobrado na carteira. Fui embora e passando pelo palhaço dei a ele o sorriso que eu deveria ter dado antes.

Talvez seja necessário amar mais e mais ainda. É preciso manter-me [Lapa] viva. De alguma maneira e em algum lugar inventar formas…

O que ela pode ter pensado sobre isso

– Tô aceitando uma cerveja heim!

Era o que dizia minha colega de faculdade depois da última hora de estudos para a prova de amanhã. Igualzinho a fala de uma personagem em um dos vídeos do Projeto Cérbero que tenho mania de assistir no YouTube.

Domingo, fim de tarde quente. Partimos para uma cerveja num boteco perto. Enquanto esperávamos a gelada congelei a imagem das duas na cabeça e comparei. O sorriso também era parecido, só o sorriso: com as covinhas na bochecha, mais nada. A pele, o batom, os olhos, as cores, nada era parecido. Ela era o oposto da personagem, não estava bêbada nem segurava a bandeira do Brasil na mão direita… Mas tinham dito a mesma frase. A voz das duas, por um instante se confundiu na minha memória. Quem era quem?

Ela olhou pra mim meio assustada.

– O que foi?

Não disse nada, sorri e não imagino o que ela pode ter pensado sobre isso… Ela retribui o sorriso e aceitou a cerveja. A conversa segue sobre as questões que podem cair na prova amanhã.

Vermelho e Preto

O vermelho e o preto, a luz do Sol, as pessoas caminhando sem atenção. Isso me traz sensações que não sei definir…

No YouTube, a música de Black Prince, me fez sentir algo de oriental e havaiano ao mesmo tempo na brasilidade de sua percussão.

Repercutiu em mim, ainda não sei como. É divertido e luminoso, bom de ver e ouvir, vermelho e preto… As cores que Black Prince usava era como um dia de sol na Lapa com trilha sonora. Lembrou-me a entrevista que Street me deu outro dia nos Arcos da Lapa – “O músico de rua, ele é um facilitador daquele vendedor de rua. Aonde tem música tem pessoas”. Encaixei mentalmente Black Prince numa cena com Street na Selaron em um domingo à noite: vermelho e preto.

Por vezes coisas acontecem, mesmo irreais. Poderíamos ir lá hoje à noite conferir?

Entrevista com Street – http://www.youtube.com/watch?v=layE-0PAS2Y

Domingo!

Acordei mais cedo do que planejei acordar: o sono acabou. Dei uma entrada no site da universidade e lá estava o lembrete para o burocrático ritual do semestre para renovar a bolsa do PROUNI. Muito chato isso para pensar num domingo, mais chato ainda lembrar que hoje não há a menor possibilidade de pipoca em frente à escola de música.

Pela janela vejo a Riachuelo com a Lavradio: uma esquina vazia. Do lado no YouTube um comercial dizia “Seus cabelos mais fortes em uma semana”, o que me fez partir para um ritual bem mais interessante – David Bowie e ampolas de vitamina A! David carregava enquanto eu melecava o cabelo com creme de massagem + ampola de vitamina A. Cantei, naveguei, dancei (não necessariamente nessa ordem!). Encontrei uma pérola, um vídeo do Placebo com o David Bowie, a música não saiu mais da minha cabeça: Without you I’m nothing… Placebo. Nome bacana pra uma banda, talvez eu pesquise algo sobre ela.

O que seria o meu placebo? Preciso pensar mais sobre isso.

Lapa Girl por Érica de Campos

Meu nome é Lapa Girl. Tento negociar com o mundo para ser ao menos um pouco a mais do que pretendo todos os dias ao acordar. Corro. Com o futuro no bolso e o passado no coração, o que me importa é fazer pensar sobre o que pode haver: por trás dos olhares, sob os paralelepípedos das ruas, no desenho da fumaça dos cigarros, nas tribos, no gingado de uma dança, nas risadas altas, nos cartazes espalhados, nas calçadas esburacadas, nos desenhos das paredes, na próxima esquina, boates, butiques e botecos, no funcionamento dos banheiros químicos, nas mercadorias dos vendedores ambulantes, nas cores da escadaria, nos Arcos da Lapa…

Enfim, meu território é aqui. Foi tão somente uma questão de escolha. O resto é pura imagem do que você conseguir criar sobre mim.

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