Arquivo da categoria: Lapa Girl por César Campos

Quando abro a janela tudo passa.

Continuo sonhando com estações do metrô, e isso me faz pensar sobre meu território.

Tem sido a mesma coisa, sonho que estou subindo as escadas para sair da estação Carioca e acabo saindo na Lapa. Acordo me sentido limitada, viciada. Mas, quando abro a janela tudo passa. Fico olhando a Lapa acelerada, saio de casa atrasada, no caminho vou refletindo, mas não entendo nada.

Wilson Negão

Wilson Negão da Lapa:

a cada casa que dormia uma mulher aparecia grávida.

quando acordada, já era tarde.

Wilson batia em retirada entre o amanhecer e a madrugada.

tais mulheres, desesperadas, partiam pra ginástica,

pra ficarem marombadas, diziam estar apenas arredondadas.

de nada adiantava, Wilson não voltava.

era um pitbull, pra cada mulher fazia uma tatoo.

só queria andar por aí, espalhar o bem

e seu sêmen.

Burguesinha, burguesinha, burguesinha, burguesinha, burguesinha…

Hoje durante a aula, de uma amiga de turma, que mora em Copacabana – e só estuda na estação Carioca do metrô porque trabalha na empresa do pai em um edifício ao lado e assim vai e volta pra casa com ele de carro – em uma conversa alheia, ouvi:

– o que presta na Lapa é o leviano’s, o rio scenarium, o sacrilégio e o Lapa 40º.

tive que intervir:

– você não tem noção do quanto a Lapa é uma imensidão de culturas, histórias e diversão. Fique sabendo que cada casa, prédio ou bar é um gabinete de curiosidades que se explorados minimamente tiram o chapéu de sua intimidade e mostram a você o que é a lapa de verdade.

Pobre burguesinha, burguesinha, burguesinha, burguesinha, burguesinha vê o mundo pela janela da carruagem.

Aqui jaz o jazz

como aves que fizeram barulho demais

foram expulsos do lugar

onde tocavam e faziam dançar.

Nova Lapa Jazz na Lapa não há mais.

alçaram vôo rumo à Praça Tiradentes.

lá montaram seu ninho, sua aparelhagem.

talvez por ser agora um lugar sem grades,

mais propício à liberdade.

a esperança de uma nova Lapa não morreu,

só voou pra longe (nem tanto)

(mas o bastante pra não se ouvir o canto).

ao lado das placas que anunciam:

“revitalização da Lapa”

outra deveria ser fincada:

“aqui jaz o jazz!”

O mundo é o que está fora do ovo

o mundo é o que está fora do ovo.

nós somos o pinto dentro do ovo,

que quando sai do ovo:

só segue o mais velho

e não faz nada de novo.

por isso eu resolvi voar, do Ponto Chique à Lapa.

aqui fiz meu ninho, mas não esqueci minha casa,

meus pais, minha família, alguns salmos.

segunda-feira, fim de tarde:

o satélite da minha internet

novamente fora do ar.

resolvi sair do ovo, de novo:

fui pra rua comer, beber, escutar, observar.

é necessário um silenciador de ouvido

para proteger os tímpanos dos veículos

histéricos.

meus fones de ouvido, sem player, só o fio,

não ajudam nessas horas,

mas no subway é o que me faz ouvir estórias.

nas mesas ao lado:

meninas falam dos namorados,

meninos falam dos casos,

mal-encarados falam de assaltos,

engraçados contam piadas.

uma eu não entendo, caio na gargalhada:

“HAHAHAHAHAHAHA!”.

as pessoas me olham como se eu estivesse

com um raio pintado no rosto e com os

fones como disfarce para escutar a todos.

com medo de eu não ser pinto,

de eu ser papagaio e espalhar pro povo.

volto pra casa, pro ovo.

Lapa Girl por César Campos

não sou Japa, nem China Girl.

sou Lapa Girl.

vivo na Lapa, vivo a Lapa

boêmia, popular, erudita

populosa, religiosa, vazia,

cultural, do carnaval…

investigo, decifro, participo.

ensinamentos aprendidos

com a faculdade de jornalismo.

o que mais eu digo?

acompanhem meu blog,

acompanhem meu destino.