Arquivo da categoria: Lapa Girl por Ana Paula da Silva

Momento Quixotesco da vida

Revolucionar;

Mudar o mundo, que um outro é possível.

Reclamo,

Protesto,

Luto.

Direito! Direitos!

Caminho.

Passo. Repasso. Compasso.

Refaço.

Meu quixote brasileiro é negro!

Aquele que sempre contribuiu para a história.

Que influenciou nas comidas, nas danças, nas manifestações religiosas, na ginga do corpo…

Será que foi um mito quixotesco a luta contra moinhos de vento e gigantes inventando pelos portugueses e difundido por Miguel de Cervantes?

Terá sido ele realmente um herói?

Seja lá o que ele foi, gosto muito do empreendedorismo de sua vida.

Encontrei-me na escadaria do Selarón, na Lapa.

Esta RECADO do Gonzaguinha me cabe neste momento.

Se me der um beijo eu gosto
Se me der um tapa eu brigo
Se me der um grito não calo
Se mandar calar mais eu falo
Mas se me der a mão
Claro, aperto
Se for franco
Direto e aberto
Tô contigo amigo e não abro
Vamos ver o diabo de perto
Mas preste bem atenção, seu moço
Não engulo a fruta e o caroço
Minha vida é tutano é osso
Liberdade virou prisão
Se é amor deu e recebeu
Se é suor só o meu e o teu
Verbo eu pra mim já morreu
Quem mandava em mim nem nasceu
É viver e aprender
Vá viver e entender, malandro
Vai compreender
Vá tratar de viver
E se tentar me tolher é igual
Ao fulano de tal que taí

Se é pra ir vamos juntos
Se não é já não tô nem aqui

THUKA

A popular Thuka, minha amiga da faculdade, me contou um causo, coisas que só acontece com ela.

Num desses dias saímos tarde da aula, e como ela tem horário pra pegar a condução para a Baixada Fluminense, saiu correndo na frente.

De sandália rasteira, daquela que de tanto usar fica lisa em baixo, minha querida amiga foi ao chão.

Disse que não percebeu como e porque caiu. Mas percebeu que havia um líquido mau cheiroso e algumas cabeças e espinhas de peixe no local.

Levantou-se correndo, limpou a perna com papel higiênico que estava dentro da bolsa e pegou a primeira van que apareceu.

Todos que iam entrando na van reclamavam do fedor de peixe podre. Thuka não sabia muito o que fazer, e quieta até seu destino suportou ouvir as falações, a cara feia de todos procurando da onde vinha o fedor e o vento forte das janelas abertas.

Isso me lembrou um dia na feira que cruza a rua do Resende, na Lapa. Catei “cavaco” com um monte de sacola nas mãos. Meus tomates se tornaram extrato!

Não fiquei com nenhum cheiro ruim, mas ganhei um joelho roxo e uma marca na minha batata da perna direita.

eleapeá!

Fiquei tentando trazer a memória qual foi a primeira vez que vim visitar a LAPA – eleapeá!

E com todo o meu esforço, não consegui recordar. A única coisa que me veio forte foi uma apresentação sobre contação de histórias no Recordatório, na rua Joaquim Silva, numa manhã de sábado. Havia recebido por e-mail e fui conhecer.

Foi uma espécie de workshop da oficina que seria dada. O lugar era muito colorido, com panos de chita, músicas de ciranda ao fundo e uma moça muito gentil que falava.

Lembro-me que não tinha idéia de onde seria a tal rua Joaquim Silva – me parecia nome de sambista – e cheguei a ficar confusa assim quando pisei na Lapa. Parei num bar e me indicaram por onde deveria seguir. Fui pela rua, avistei o número, apertei a campainha, subi pelas escadas e lá estava eu, sendo recebida pela “professora” e outras mulheres que também tinha ido lá para conhecer a oficina.

A visão da lapa que sempre me apresentavam como lugar boêmio, pela manhã de sábado tinha outra sintonia. Vi coisas que jamais perceberia numa noite: Vi pessoas com pães nas mãos, gente varrendo calçada, mulheres gritando pelas crianças, homens lendo jornal na esquina.

Logo pensei: As noites deve ser pura encenação! Bares, ruas com diversos figurantes. Como uma vida de big brother que alguém, que não sabemos quem, vê, assite e manipula todas as peças.

Mas pelas manhãs, pelo menos nos finais de semana, o poder não pode ser exercido e a vida torna-se normal.

Roupas prateadas e plataforma

Saí pela noite da Lapa depois de um dia tenso de pesquisas com os vendedores ambulantes e um sol a pino.

Vi uns daqueles trombadinhas, uns dois, assustando uma pobre senhora branquinha. Me saltei para cima dos moleques que atônitos ao me ver brilhante – coloquei uma de minhas roupas prateadas e plataforma vermelha para combinar com a faixa dos meus olhos – e em postura ríjida os olhei fixamente. Eles correram deixando a bolsa da senhora.

Ela assombrada numa mistura de deslumbramento saiu correndo pela rua do Resende, como se não esperasse aquilo.

Lapa Girl por Ana Paula da Silva

Uso roupas coloridas ou com brilho. Olhos pintados de vermelho para contrastar com a pele negra, branca, vermelha, tanto faz. Meu olhar é suave quase melancólico. Sexo, idade, religião, time… Coisas que não me importam para viver.

Dizem que sou um pierrô urbano.

Sou homem, mulher, as coisas, a Lapa.

Transito por todos os lados: becos e vielas, botecos à casa de shows, de prostitutas à vendedores ambulantes. Vou aonde meus interesses me levam e sou esses lados porque aumento as minhas possibilidades de ser.

No lugar dos moinhos de vento, eu luto pela vida – minha alusão e utopia ao Heroísmo de Quixote– livro que li adolescente.

Espalho fotos de pessoas desconhecidas pela Lapa. Isso está tomando uma repercussão enorme. Assino Lapa Girl.