Integrações.

– Dá licença?

– Sim?

– Eu preciso chegar em Nova Iguaçu e…

– Você é de lá?!

– Sou sim, mas…

– Eu também sou de lá! De que parte você é?

– Ponto Chic, mas o que eu queria perguntar era…

– Ah Ponto Chic, mas ali pra perto de Três Corações ou…

– Olha só, eu preciso ir pra Nova Iguaçu, mas as coisas aqui estão meio confusas.

– Confusas? Não, não tá confuso. É porque hoje você tem que fazer a transferência pra linha 2. Pra chegar em Nova Iguaçu você pode pegar a integração. Você pediu pela integração intermunicipal?

– Sim.

– Então, daqui da Cinelândia, você pega o trem do lado de lá,desce na Cinelândia e troca de plataforma, aí o trem vai passar pela estação da Cinelândia, pela Cinelândia e vai embora até chegar na última estação que é a Cinelândia. Então você sai e pega o ônibus que vai pra Cinelândia, tem dois até. Aí então você estará na…

– Cinelândia. Mas esse é o problema…

– Então eu não posso te ajudar… é melhor você dar uma olhada naquele painel com o mapa das estações.

Olhei o painel. Decidi que era melhor levantar da cama e tomar um café.

Percebo algo que dá no mesmo…

Numa dessas quartas-feiras corridas de minha vida corro que nem uma louca para ir a faculdade, mas antes tenho que  passar no  chaveiro para fazer outra chave , a minha está travando na porta uma aporrinhação , pego um lugar vazio para sentar  ….Ufa!!!! Penso comigo coisa rara nesse horário da manhã um lugarzinho para sentar… Quando percebo que algo dá no mesmo… Vejo algo como se fosse os vídeos que vejo sempre no Youtube… Euzinha no chaveiro fazendo de novo uma nova chave… É que quando descubro que nem mesma sai da cama para a labuta de sempre… E o que é mais estranho que o metrô não faz parte da minha rota… E que minhas chaves está sempre abrindo as portas….

Quando abro a janela tudo passa.

Continuo sonhando com estações do metrô, e isso me faz pensar sobre meu território.

Tem sido a mesma coisa, sonho que estou subindo as escadas para sair da estação Carioca e acabo saindo na Lapa. Acordo me sentido limitada, viciada. Mas, quando abro a janela tudo passa. Fico olhando a Lapa acelerada, saio de casa atrasada, no caminho vou refletindo, mas não entendo nada.

Next stop Cinelândia

Acho que eu estava cochilando, é isso. Eu estava com muito sono e acordei assustada ouvindo aquela voz sexy e musical do metrô: “Next stop Cinelândia”. Como pode? Se eu tinha entrado no metrô justamente na estação Cinelândia como poderia eu estar ouvindo essa frase?!

O vagão estava lotado, quente e sem ar. Olhei ao redor e todas as caras demonstravam sentir uma mesma insatisfação. Preferi fechar os olhos, eu também não queria estar ali – O Metrô é a mesma coisa que trem, só que mais limpo. Eu pensava nisso e na estação que se aproximava. Eu precisava levantar e sair do vagão. Meus olhos não abriram e de repente aquela voz novamente “Next stop Cinelândia”. Não é possível! Decidi levantar. Talvez, se eu conseguisse me aproximar da saída, mas são tantas pessoas até lá. Eu pedia licença, mas a magia dessa palavra não funcionava ali. Eu tentava escorrer entre os corpos. Não consegui identificar quem beliscou minha bunda. Estava quase chegando, se a próxima estação era a Cinelândia, na outra eu poderia sair. Passou a Cinelândia e consegui chegar até a porta. Fiquei imprensada ali, com a cara no vidro e os olhos abertos aguardando a próxima estação…

Next stop Cinelândia”. Acordo e estou sentada no banco preferencial do metrô. A velhinha cutucando com um olhar revoltoso e eu levanto meio tonta para ela sentar e inventar um outro olhar mais generoso. Não sei o que está acontecendo! A próxima estação então era a Cinelândia? Mas se foi de lá que eu vim?! A velocidade diminui, a porta abre – Cinelândia – empurrei quem estava na minha frente e saí depressa do vagão. Subi as escadas correndo em direção a saída, passei a roleta. O que devo vou encontrar lá fora? Mal posso esperar para descobrir…

Momento Quixotesco da vida

Revolucionar;

Mudar o mundo, que um outro é possível.

Reclamo,

Protesto,

Luto.

Direito! Direitos!

Caminho.

Passo. Repasso. Compasso.

Refaço.

Meu quixote brasileiro é negro!

Aquele que sempre contribuiu para a história.

Que influenciou nas comidas, nas danças, nas manifestações religiosas, na ginga do corpo…

Será que foi um mito quixotesco a luta contra moinhos de vento e gigantes inventando pelos portugueses e difundido por Miguel de Cervantes?

Terá sido ele realmente um herói?

Seja lá o que ele foi, gosto muito do empreendedorismo de sua vida.

Encontrei-me na escadaria do Selarón, na Lapa.

Esta RECADO do Gonzaguinha me cabe neste momento.

Se me der um beijo eu gosto
Se me der um tapa eu brigo
Se me der um grito não calo
Se mandar calar mais eu falo
Mas se me der a mão
Claro, aperto
Se for franco
Direto e aberto
Tô contigo amigo e não abro
Vamos ver o diabo de perto
Mas preste bem atenção, seu moço
Não engulo a fruta e o caroço
Minha vida é tutano é osso
Liberdade virou prisão
Se é amor deu e recebeu
Se é suor só o meu e o teu
Verbo eu pra mim já morreu
Quem mandava em mim nem nasceu
É viver e aprender
Vá viver e entender, malandro
Vai compreender
Vá tratar de viver
E se tentar me tolher é igual
Ao fulano de tal que taí

Se é pra ir vamos juntos
Se não é já não tô nem aqui

Um bode, uma cerveja e um padre

Um bode, uma cerveja e um padre. Olhar esse azulejo me fez lembrar que nem tudo na vida faz sentido, o que é bom, porque abre para interpretações. Mas eu não consigo pensar em nada, nem em nenhuma situação onde os três possam estar dividindo o mesmo espaço. Espera. Agora me passou pela cabeça que se o bode não for bode, há possibilidades…

Apocalipse

“Vi, então, descer do céu um anjo que tinha a chave do abismo e uma grande cadeia na sua mão. E prendeu o dragão, a serpente antiga, que é o Demônio e Satanás, e amarrou-o por mil anos; meteu-o no abismo e fechou-o e pôs selo sobre ele, para que já não seduza mais as nações, até se completarem os mil anos; e depois disto deve ser solto por um pouco de tempo” – Apocalipse 20:1-3.

“Criaturas! Deixem-me em paz!” – Enfezado, ele dá a língua aos humanos que por ali passam.

 Há quantos milênios o Diabo procura a paz? O dia marcado e remarcado infinitamente o faz se sentir injustiçado. Cansado de levar a culpa o tempo todo, mesmo com aquela cara feia, ele também gostaria de sorrir, sair do abismo em que o jogaram, respirar menos enxofre.

Ainda que pronunciado o tempo todo, e por inúmeros nomes distintos, o Diabo está só. Quer o seu pouco de tempo (por direito, já que o está escrito é lei), e quem sabe tomar um sorvete ou abandonar de vez o vermelho…

“Também sou filho de Deus!” – Reclama a minha atenção, através de um de seus ícones, preso a um azulejo da Selarón… Dei a língua pra ele também e segui meu rumo.

Azulejaste

Em meus devaneios do dia a dia cansada com o ritmo da faculdade, do trampo e de minhas intermináveis pesquisas sobre minha monografia dos ambulantes da Lapa, sento-me na escadaria do Selarón, e vagueio meus pensamentos numa imagem em minha frente duas formas de imagens dentro de um pequeno azulejo criam vultos de imaginação, surge então num balé rodopiante um Homem destemido como toureiro encara bravamente a besta animal e fera, o sonhador e seu algoz e vejo em minha frente à humanidade plena nessa hora de que como todos somos destemidos diante da bravura do cotidiano Toureando a vida a cada instante num gingado que só tiramos de letra porque acreditamos em momentos melhores, alegro-me de ver a tia vendendo seu amendoim no passar lento na escada com seus olhos brilhante de orgulho.  OLÉ!

Um pedaço da Lapa que escolhi.

“Pequenas coisas associadas ao que traz um bom viver (ser)”. Cruz gamada, elo encontrado em muitas culturas em tempos diferentes, dos índios Hopi aos Astecas, dos Celtas aos Budistas, dos Gregos aos Hindus.

Aqui encontraste o caminho, felicidade, prazer e boa sorte, encontraste a estetica. Mais uma dose no copo colorido…Alô…Alô…Alô …Convento de Santa Teresa via Lapa, o bonde vai partir.

O elo hoje é meu, 2.000 peças, compõem, ligam, diferenciam, um pedaço da Lapa que escolhi.

Wilson Negão

Wilson Negão da Lapa:

a cada casa que dormia uma mulher aparecia grávida.

quando acordada, já era tarde.

Wilson batia em retirada entre o amanhecer e a madrugada.

tais mulheres, desesperadas, partiam pra ginástica,

pra ficarem marombadas, diziam estar apenas arredondadas.

de nada adiantava, Wilson não voltava.

era um pitbull, pra cada mulher fazia uma tatoo.

só queria andar por aí, espalhar o bem

e seu sêmen.